Diario libertario de lugo e galaxia

Os trabalhadores portugueses radicados na Galiza podem ser considerados para todos os efeitos galegos com as suas raízes além Minho

25/01/2014
20:25

Acaba de sair do prelo a última publicação da Através | Editora, carimbo editorial da Associaçom Galega da Língua (AGAL). Trata-se de Emigrados, exilados e perseguidos. A comunidade portuguesa na Galiza (1890-1940) do economista e historiador Dionísio Pereira, um ensaio histórico que apresenta as consequências que o processo de perseguição e aniquilação política perpetrado pelos executores do golpe de estado de Julho de 1936 teve para os cidadãos de origem portuguesa residentes ou exilados na Galiza. O livro realizou a sua primeira apresentação pública na passada quarta-feira, 18 de dezembro na Livraria Ciranda de Santiago de Compostela. Entrevistamos Dionísio Pereira para descobrir algumas das chaves deste trabalho.

Há uns meses conhecíamos a desaparição do projeto interuniversitário "Nomes e Voces" centrado no estudo da repressão franquista durante a Guerra Civil e a ditadura. É Emigrados, exilados e perseguidos resultado das pesquisas levadas a cabo nos sete anos de vida do projeto?

Sim, em parte. A ideia surgiu, de facto, ao constatar na base de dados do projeto o relativamente elevado número de pessoas com origem portuguesa objeto de represálias. Ao tentar dar-lhe uma explicação, não houve outra opção que prestar atenção à emigração portuguesa na Galiza, uma migração secular, persistente, silandeira e fundamente integrada no país. E daí, enxergar as reviravoltas da sua incorporação ao mercado de trabalho na Galiza, até a progressiva integração de multidão de trabalhadores de além Minho nas organizações operárias galaicas, mesmo a nível de dirigentes, como prólogo das perseguições de que foram alvo após o golpe militar de Julho de 1936.

O estudo está realizado sob a perspetiva da história transnacional. Esse enfoque da investigação dá resultados diferentes aos conseguidos mediante a prática historiográfica estatalista?

Este enfoque permite abordar o percurso social dos emigrantes portugueses na Galiza, tendo em conta a sua origem, mas também o seu grau de integração num país de acolhida muito semelhante no que diz respeito à língua e hábitos de sociabilidade. Deste modo, os trabalhadores portugueses radicados na Galiza podem ser considerados para todos os efeitos (mesmo no campo político ou societário) galegos com as suas raízes além Minho. Fora disso, entendo que a visão transnacional (transestatal), focalizada a partir do estudo e o reconhecimento de umas realidades locais separadas por fronteiras frequentemente arbitrárias, é uma vacina eficaz contra o chauvinismo e a xenofobia.

A corrente migratória portuguesa na Galiza passou tradicionalmente desapercebida, ao contrário do acontecido com a emigração galega em Portugal, amplamente documentada e estudada, a que se deve isto?

Se calhar, porque a emigração galega a Portugal, estabelecida mormente no Porto e Lisboa e em muita menor medida na região do Douro, foi maciça desde o século XVIII e radicou em grandes núcleos urbanos, o que permitiu certa visibilidade acrescentada pola sua vontade associativa. Polo contrário, a paulatina e persistente emigração portuguesa foi a conta-gotas e, para além disso, estivo muito dispersa por toda a Galiza rural, devido a que até depois da 1ª Guerra Mundial aqui não houve núcleos urbanos de relevância. Afinal de contas, a identidade cultural coa população autóctone e a serôdia aparição de elementos associativos próprios da emigração portuguesa, contribuíram a que tanto na Galiza como no seu próprio país, Portugal, aquela passasse desapercebida.

No livro falas de dous tipos de exilados: por um lado, políticos e militares contrários à Ditadura Militar instaurada após o golpe de estado de 1926 e ao regime salazarista a partir de 1933 e, por outro lado, membros da esquerda operária de origem social mormente popular. Tiveram as mesmas facilidades para se integrarem na sociedade galega da altura?

Os políticos e oficiais do Exército português que passaram a fronteira após o golpe militar de 1926, vão ser muito bem recebidos na Galiza pola oposição galeguista e republicana à Ditadura de Primo de Rivera. Vão-os acolher e, andando já a IIª República espanhola, os seus correligionários galaicos foram capazes de dar uma certa relevância mediática aos posicionamentos dos exilados. Porém, todos eles estiveram de passagem, sempre coa ideia de retornarem a um Portugal democrático e republicano, de maneira que os seus movimentos tiveram sempre esta perspetiva, nunca a de se integrar na sociedade galega, algo, por outro lado, bem fácil para pessoas respeitadas a nível social e de boa posição económica.

No tocante aos poucos trabalhadores exilados na Galiza após os grandes movimentos operários antissalazaristas acontecidos entre 1933 e 1935, estes incorporarão-se às organizações obreiras correspondentes à sua ideologia: os operários portugueses socialistas, comunistas ou libertários exilados participarão na UGT, no PSOE, no PCE, na CNT ou na FAI, ao lado doutros muitos compatriotas emigrados. A propósito, uns e outros juntos constituirão organizações anarquistas próprias, coordenadas com as do país. A outra cara da moeda foi que, no chamado Biénio Negro, emigrantes e exilados portugueses sofrerão a mesma perseguição que os seus camaradas galegos, devido à sua participação nas lutas sociais. Alguns mesmo serão deportados a Portugal em pleno período republicano.

A repressão foi maior sobre o coletivo dos emigrantes económicos (lavradores, canteiros, serradores...). Por que?

Porque eram, com muita diferença, a maioria dos cidadãos de origem portuguesa que residiam na Galiza. No momento de maior densidade de exilados políticos, estes tão só se contaram por centos; além disso, não poucos retornaram a Portugal antes de 1936, aproveitando as amnistias que Salazar decretou. Entre tanto, a colónia emigrante na Galiza não baixaria das 20.000 pessoas, ainda que não existe um censo fiável porque muitos eram ilegais e não estavam anotados nos consulados. Em definitivo, eram mormente emigrantes os que se afiliaram às organizações operárias e participaram na agitação laboral e social no nosso país; por isso, alguns pagaram um prezo muito alto quando os golpistas dominaram a situação.

Grande parte dos episódios acontecidos na raia e protagonizados por guerrilheiros foram obscurecidos polas que denominas como memórias envergonhadas. Que são essas memórias envergonhadas?

O de memórias envergonhadas é uma expressão (afortunada) de Carlos Velasco que tomo prestada. Filhas do sofrimento e próprias de sociedades onde (como em Trás-os-Montes) a hegemonia das oligarquias conservadoras e da Igreja Católica é abafante, as memórias envergonhadas rejeitam tudo aquilo que possa lembrar o antagonismo e a revolta. E ponho o exemplo de Manuel Buíça, coautor do regicídio na pessoa do monarca D. Carlos no ano de 1908 e filho natural de um abade de Vinhais, localidade em que residiu enquanto jovem. Pois bem, em Vinhais até há bem pouco ninguém queria ver escrito que Buíça tinha sido vizinho da vila. E também até bem entrados os anos 90, os vizinhos do Cambedo ou de Sernande, lugares onde moita gente foi presa por ajudar o "maquis", estavam pouco predispostos a tratar estas temáticas por temor a serem assinalados como "vermelhos". Penso que na Galiza sabemos bastante destas cousas.

Onde achas que pode levantar maior interesse Emigrados, exilados e perseguidos? Na Galiza ou em Portugal?

Oxalá nos dous países, porque é algo do que quase nada se sabia, nem aqui nem alá! Se calhar, penso que a boa reação que houve além Minho nalgumas pessoas vinculadas ao jornalismo e à investigação antropológica e histórica ao saberem dos meus trabalhos e o possível interesse que podem provocar os insuspeitados padecimentos dos seus compatriotas durante o regime franquista num país como Portugal, onde a nacionalidade é muito sentida, sejam motivos para pensar numa boa acolhida em território português.

 

Fonte

Sección: